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Luto e as Redes Sociais

Luto e Instagram: qual a relação entre nossas perdas pessoais e o espetáculo visual das fotos e vídeos?

O Instagram é uma rede social criada em 2010 por Kevin Systrom e Mike Krieger, e que já ultrapassou o número de um bilhão de usuários. A rede social ganhou espaço na vida cotidiana humana em todo o mundo como fonte de entretenimento, baseada no compartilhamento de fotos e vídeos entre os usuários da plataforma.

A popularidade do Instagram vem, pelo menos em parte, da sensação de alívio que ele gera e que suaviza a aspereza que a vida pode trazer. No entanto, o vício nesse “alívio” muitas vezes faz parte de uma fuga inconsciente da mente, que mascara seus processos de luto com excesso de felicidade e perfeição.

Quer saber mais sobre como o Instagram se relaciona com o luto? Neste artigo, faremos uma reflexão sobre esse assunto.

O processo de luto

O luto é um fenômeno natural, que faz parte da vida humana. Para Freud (1917), o luto é uma reação frente a uma perda, seja de uma pessoa querida ou de algo mais abstrato, como um ideal ou fase da vida. De uma forma geral, uma pessoa em luto pode sentir tristeza e o desejo de se isolar por um tempo.

É importante destacar que existem diversas formas de luto e que ele não acontece só quando um ente querido morre. O luto é mais abrangente e pode se manifestar na perda de um emprego, no término de um relacionamento amoroso, durante o processo de envelhecimento ou durante uma mudança de papéis sociais.

Esse processo não deve ser interrompido, pois é necessário para que a pessoa consiga se adaptar à nova realidade.

Mesmo sendo uma vivência comum, o luto além de ser mal interpretado, foi demonizado e banido pela sociedade. Esse processo ainda é mal compreendido e, muitas vezes, tratado como algo negativo ou até mesmo ignorado.

O luto e o Instagram

Figueiredo (2017) destaca que, na sociedade atual, a dor humana tem sido desvalorizada, muitas vezes por mecanismos de defesa. Diante dos lutos da vida, o ser humano recorre a um movimento ascensivo para se defender. Em outras palavras, trata-se de um "para cima e para fora", tentando subir, manter o ânimo elevado, se mostrar bem, forte e alegre, evitando entrar em contato com a própria dor profunda.

O Instagram, assim como outras redes sociais, tem sido utilizado como um instrumento de fuga emocional, promovendo a negação da dor por meio da exibição constante de felicidade, camuflando o sofrimento e reforçando padrões irreais de bem-estar.

Em oposição, o "para baixo e para dentro", que é o mergulho no sofrimento, no recolhimento, na tristeza e na elaboração emocional da perda — algo necessário para o amadurecimento e a ressignificação — é deixado de lado e até mesmo visto como “errado”.

Um exemplo comum desse movimento é o excesso e a veneração de fotos que mostram apenas momentos perfeitos e felizes. O que emerge, possivelmente, é uma negação de qualquer possibilidade de sofrimento, luto, imperfeição e falta que a vida pode gerar. Entretanto, nos bastidores do mundo interno do ser humano, a dor da perda fica oculta e ignorada.

Essa evitação emocional e a forma como as pessoas se defendem usando as redes sociais não deve ser encarada como anormal ou um distúrbio. Fugir da dor faz parte do processo do luto, especialmente quando ela é intensa demais para ser enfrentada de uma só vez.

O luto não é linear. Ele envolve fases como negação, raiva, tristeza e aceitação, que podem se misturar ou se repetir. Porém, a partir do momento que a fuga do luto é intensa e recorrente, de tal maneira que impede a ressignificação e o amadurecimento psíquico, é importante prestar atenção e procurar auxílio de profissionais da saúde. 

Se você está passando por algo parecido, não deixe de procurar ajuda especializada. Cuide da sua saúde mental!

Texto elaborado pelo psicólogo Bruno Raszeja, da unidade do Serviço de Cuidados Prolongados (SCP).